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A Magia do Espelho: Julho 2011

A Magia do Espelho

Espaço para devaneios, reflexões, desabafos, dicas culturais e otras cositas más

Mamãe morreu?


Mamãe morreu? Morreu de verdade? Não volta mais? Estas são algumas das perguntas que tenho me feito constantemente nos últimos dias, sobretudo ao acordar, quando me deparo com uma realidade totalmente diferente da que estava acostumada e da que eu imaginava que viveria pelos próximos anos. A essas perguntas, somam-se muitas outras, tais como: E agora, o que será de nós? Por que isso aconteceu, sendo ela tão jovem? Será um castigo de Deus? Um dia essa dor vai passar? Será que um dia irei encontrá-la? Por quê? Por quê? Por quê?

O fato é que, mesmo sabendo que a morte é inerente ao ser humano e que, mais cedo ou mais tarde, todos nós teremos um encontro com ela, seja pela nossa própria morte ou pela morte de alguém muito amado por nós, achamos que este dia está muitooo longe e que, quando ele se aproximar, teremos tempo de corrigir nossos erros, fazermos coisas que queremos ou nos prepararmos melhor para encarar a morte. Eu também pensava assim, mas tive a confirmação de que as coisas não ocorrem desta forma, que a morte vem, muitas vezes, sem dar aviso nenhum, no momento que menos esperamos.

Quando mamãe sentiu um dor em uma noite de segunda-feira, no final de junho, ficamos preocupados, mas achávamos que seria algo "simples", que teríamos tempo para investigar e tratar, sem correrias, para que tudo ficasse bem, sobretudo porque essa dor passou logo. Mas, quando a dor voltou, muito forte, na manhã de sexta-feira da mesma semana, no dia 25 de junho, nossa preocupação cresceu consideravelmente, mas nunca, em nenhum momento, passou pela nossa cabeça que estávamos perdendo mamãe.

Foram quase três dias até descobrirmos o que ela realmente tinha. Diversos exames foram feitos, todos apontando para uma apendicite, mas, somente durante a cirurgia, veio o diagnóstico correto. Diagnóstico tardio, incapaz de reverter a situação da minha amada mãe. Fomos surpreendidos por uma doença que nunca tínhamos ouvido falar, que veio em sua forma mais grave e tirou mamãe de nós. Após a cirurgia, ela ainda ficou dois dias em coma e partiu para a eternidade, no início da tarde de terça-feira, 28 de junho. Foram dois dias de angústia, mas de muitas orações, louvores e súplicas para que ela ficasse boa. Nada adiantou.

Depois disso e de todos os horrores de velar e enterrar a pessoa mais importante da nossas vidas (da minha, das minhas irmãs e do meu pai), restou o choque, a perplexidade, a incredulidade, a falta, a dor, as lembranças, a saudade incomensurável, as lágrimas e um turbilhão de perguntas, de “por quês”, de “e se...”. Pesquisando e conhecendo a gravidade da doença, sabemos que salvá-la seria mesmo um milagre, mas não conseguimos aceitar esta perda tão repentina.

Mamãe nunca ficava doente. Era raro vê-la gripada ou mesmo com dor de cabeça. A única vez que a vi sofrer com dor foi durante uma crise de hérnia de disco, que, após controlada, nunca mais a incomodou. O único problema de mamãe era com o colesterol alto, que ela já estava buscando controlar com o auxílio de remédios.  Além disso, mamãe sempre foi a mais saudável de suas irmãs e eu acreditava que ela viveria muito, ficaria bem velhinha, assim como vovó, mãe de mamãe, que, no dia 04 de julho, completou 94 anos.

Por outro lado, papai sempre nos inspirou mais cuidados, pois é de uma família com um sério histórico de doenças cardíacas, onde, até agora, a idade máxima alcançada por um de seus irmãos foi 70 anos. Os demais morreram com idade entre 63 e 68 anos, e ele completou 60 neste ano, motivo pelo qual sempre brincava com mamãe, dizendo para ela se preparar, pois ele já estava perto de partir. Com todo esse histórico e sofrendo de pressão alta, nunca pensamos em perder mamãe antes dele, não que quiséssemos perdê-lo, pois esta ideia também é MUITO dolorosa. Contudo, fomos surpreendidos, pois nunca pensamos em perder mamãe. Levamos uma rasteira e confirmamos que as coisas não ocorrem do jeito que pensamos, não seguem lógicas.

Passados 16 dias da partida de mamãe, ainda não temos respostas para as perguntas que surgem a todo momento. Mas, a despeito da nossa vontade, tentamos nos convencer de que ela realmente não voltará mais, mas que continuará vivendo em nós. Esse convencimento não é nada fácil. Tento tocar a vida, mergulhar no trabalho, o que tem ajudado, mas me ela não me sai do pensamento. Me pego pensando em combinar coisas com ela ou com pensamentos do tipo: “Quando mamãe chegar, vamos fazer isso” ou “Preciso perguntar isso pra mamãe”. Ainda espero por ela e, quando me dou conta de que ela não voltará mais, entro em desespero.

Penso que jamais entenderemos porque ela foi levada tão cedo, tão jovem, tão cheia de saúde, de vida, de sonhos e de vontade de viver. Se acostumar com a sua ausência tem sido muito difícil, uso a palavra muito por falta de outra que consiga expressar a intensidade da dificuldade que enfrentamos. Durmo e acordo pensando nela, tudo que vejo me lembra ela. Quero ligar, quero conversar, comentar coisas com ela, perguntar sua opinião sobre assuntos diversos do cotidiano, combinar coisas, planejar coisas etc., mas me frustro todas as vezes, a cada minuto que penso nela, porque sei que nada disso será mais possível.

Alguns podem pensar que, por morar distante dela, eu sofra menos, uma vez que o meu dia a dia não era com ela e, por isso, não mudou muita coisa. De fato, eu continuo tendo que trabalhar, as crianças dos vizinhos continuam brincando e gritando no meu prédio, as roseiras que ela plantou, com o auxílio de papai, continuam crescendo na minha varanda e eu continuo tendo que resolver os problemas do cotidiano. Contudo, a vida não é e nunca mais será a mesma. O mundo ficou mais cinza e triste pra mim e para todos que a amavam e amam.

A ligação que possuímos com uma pessoa não está relacionada ao nosso dia a dia, ao nosso cotidiano, à nossa rotina. É algo muito maior que, mesmo brigando, criticando, se desentendendo, não acaba, não passa, não morre. Ela poderia não estar fisicamente no meu dia a dia, mas sempre esteve no meu íntimo, nos meus pensamentos, nas minhas esperas constantes para revê-la, pela sua chegada ou pela minha ida até a sua casa, a minha verdadeira casa.

O que sinto, assim como minhas irmãs e meu pai, é um buraco, um vazio, uma falta que não tem explicação, que nada preenche. Uma saudade angustiante, porque sei que, pelo menos nesta vida, não irei mais abraçá-la, a não ser em sonhos. Somente quem já passou por uma situação assim é capaz de entender o sofrimento, a dor da ausência, da perda.

Tenho saudade do seu jeitinho avoado, de ligar e ouvir ela responder “Oi, amor”, quando eu falava “Oi, mãezinha”, de conversar com ela, de ouvir sua opinião, de trocar ideias, de sonhar juntas etc. Apesar de todo o amor que sempre tivemos uma pela outra, também tivemos desentendimentos, como a maioria das mães e filhas. Essas coisas e o meu jeito de ser com as pessoas, em alguns momentos, inclusive com ela, têm me deixado mais triste ainda, pois acho que não fui a filha que ela merecia ter tido, acho que poderia ter feito muito mais por ela, mimado e amado ela muito mais.

Tenho culpa pelas coisas que não disse, pelas coisas que não fiz, pelas coisas que pensei em dizer e fazer, mas que não executei. Sinto culpa e remorso porque ela realmente merecia muito mais de mim, mas eu achei que nós duas tivéssemos mais tempo e que eu estava fazendo o suficiente, mas não estava. Tento me consolar pensando que eu sou humana, que eu tenho falhas, sou cheia de defeitos, mas, nada do que eu tenha feito, dito ou deixado de fazer ou dizer modificou meu amor por ela ou o dela por mim. Me consolo lembrando dos nossos bons momentos e de que sempre procurei dizer e repetir para ela que eu a amava muito.

Apesar das minhas falhas, imperfeições e erros, sei que ela, tinha orgulho de mim e das minhas irmãs, que nos amava incondicionalmente. Ela tinha aquele orgulho de mãe, muitas vezes exagerado, que deixa a gente envergonhada, mas que, no fundo, a gente adora.

Não posso mais sentir mamãe fisicamente, sei que ela continua viva, pois o que ela nos ensinou e deixou conosco é forte demais para morrer com o seu corpo. Mamãe nos ensinou muito em vida, mesmo quando achávamos que não, e também em morte. Tento acalmar meu coração pensando que a morte não é o fim, mas não é fácil.

Ainda vai demorar MUITO até eu digerir tudo isso, aceitar a morte dela, aprender a lidar com isso de forma saudável, sem fingir que nada aconteceu ou sem empurrar a dor para debaixo do tapete. Hoje, alterno momentos de alegria e gratidão por ter vivido 26 anos com ela, por ter tido ela como mãe, com momentos de extrema tristeza e desilusão com a vida.

Quando digo para as pessoas “Só Deus para nos consolar” ou quando escuto isso delas, sei que só Ele mesmo, pois somente uma força sobrenatural, muito além do nosso entendimento, é capaz de mostrar uma luz, de dar conformação e consolo a um coração despedaçado e sem esperanças. Estou buscando forças em Deus para me ajudar e ajudar a minha família.

Aos amigos que foram ao velório e ao enterro, aos que ligaram, mandaram mensagens, e-mails etc., agradeço sinceramente a consideração, o carinho e a atenção. Peço desculpas se estou isolada, se não quero conversar, mas estou sentindo necessidade de ficar só. Escrever aqui já me ajudou muito. E, aos que perguntam se preciso de algo, eu quero responder que sim, que preciso MUITO de mamãe, MUITO MESMO. Mas, como não posso tê-la, aviso que preciso também de orações, para mim e para minha família. Peço que orem, com real interesse, para que mamãe, papai, minhas irmãs, eu e todos os parentes e amigos que amam mamãe fiquem bem, cada um na sua nova realidade. Precisamos disso.

Vale a pena ler de novo

  • A lição final
  • A sangue frio
  • Crônicas de Nárnia
  • George e o segredo do Universo
  • O caçador de pipas
  • O Pequeno Príncipe

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